O Pé Descalço... nas empresas!
... e onde começa o trabalho da Liderança!

Este fim de semana, nas Festas das Cruzes, durante o cortejo etnográfico, o apresentador, ao descrever o traje de trabalho de outros tempos, referiu que as pessoas na sua generalidade viviam e trabalhavam… descalças. Uma realidade de outros tempos!

Recordei-me que tinha estudado que a - Lei do Pé Descalço - de facto existiu e terá surgido (fui pesquisar: por volta de 1926). Não era metáfora, era literal. Andar descalço nas ruas de muitas zonas urbanas passou a ser proibido e havia fiscalização e multas.

O mais caricato, a meu ver é que não era apenas higiene e sim… imagem! Sim, o regime não estava focado na eliminação de pobreza… queria sim eliminar os sinais visíveis da pobreza. E o pé descalço tornava-se um problema não por aquilo que causava, mas por aquilo que mostrava.

E é aqui que isto deixa de ser história e passa a ser gestão. Porque me ocorre que algumas empresas fazem exatamente o mesmo. Não resolvem o problema, resolvem a aparência do problema. Ajustam indicadores para parecerem saudáveis, escondem falhas operacionais com mais esforço humano, afastam clientes insatisfeitos dos relatórios, mantêm equipas em rutura desde que continuem a entregar... Tudo parece organizado, tudo parece controlado, tudo parece funcional… esta grande ilusão. E tal como em 1926, não se está a resolver a realidade, sim a gerir a sua percepção!

Já sabemos que os “problemas reais” não desaparecem só porque deixaram de ser visíveis. Acumulam-se. Ganham pressão. E mais tarde ou mais cedo aparecem e, normalmente de forma mais cara e mais difícil de resolver. A história mostra-nos isso, mas a gestão insiste em esquecer. Pois quando uma empresa começa a preocupar-se mais com o que mostra do que com o que realmente acontece, começa a afastar-se do seu próprio futuro.

Curiosamente, quem mais sofria com essa lei eram os que tinham menos margem: vendedores ambulantes, varinas, pessoas que viviam no limite. E o que faziam? Adaptavam-se. Usavam socos que penduravam num dos ombros ou à cinta, ou calçavam apenas um pé… encontravam diferentes formas de contornar a regra sem resolver o problema de fundo.

E dentro das nossas empresas?😃 Fazemos o mesmo! Criam-se atalhos, soluções improvisadas, “remendos” que passam a fazer parte do sistema. Não porque são boas soluções, mas porque são as únicas possíveis dentro de um contexto que prefere esconder do que resolver.

Acredito que um negócio saudável não é aquele que parece impecável por fora. É aquele que tem coragem de olhar para o que não está bem enquanto ainda está dentro de casa. É aquele que não precisa de proibir “pés descalços” porque trabalha continuamente nas causas e não nos sintomas.

Por fim, a pergunta que importa não é se a sua empresa tem problemas, desafios ou dificuldades. Todas têm. A pergunta que deixo para reflexão é: o que é que já foi silenciosamente empurrado para fora da vista só porque era incómodo mostrar?

Se souber a resposta... É aí que normalmente começa o verdadeiro trabalho de liderança!

A sua empresa melhora a vida de quem a rodeia ou limita-se a não a piorar?
... frase atríbuda a Dalai Lama