Há temas dentro das empresas que simplesmente não se falam. Não porque não existam, mas porque são desconfortáveis, difíceis de definir e, muitas vezes, mal compreendidos. A privacidade e a transparência são dois desses temas.
Sempre defendi o “ser transparente”, fomentar a “comunicação aberta” e uma “cultura de confiança”… e nas empresas por onde passo felizmente quase sempre assim é.
Recentemente numa reunião de quadros superiores a pergunta foi - onde estão os limites? O que deve ser partilhado? O que pode — e deve — ficar no espaço individual? E, mais importante ainda: onde termina a privacidade e começa a responsabilidade?
Não foi simples responder... sabemos sim que a ausência de clareza pode criar ruído. E o ruído, dentro de uma empresa, nunca é neutro — ou gera desconfiança ou leva à distorção da realidade.
No momento e um pouco a quente ocorreu-me que uma ideia simples que pode ajudar a clarificar este tema - a privacidade é um direito e honestidade é um dever. Ou seja nem tudo tem de ser dito. Mas tudo o que é dito tem de ser verdade! E, acredito eu, isto muda completamente a forma como olhamos para a transparência dentro das organizações.
Entendo, e nem sempre assim fui, que privacidade não é falta de compromisso, nem falta de alinhamento. Cada pessoa tem o seu espaço, o seu contexto e as suas questões. Nem tudo o que é pessoal deve ou tem que ser exposto no ambiente profissional. E o mesmo se aplica à própria gestão: nem toda a informação estratégica pode — ou deve — ser partilhada em detalhe com toda a estrutura. Há timings, há níveis de responsabilidade e há maturidade organizacional!
Guardar informação, por si só, não é o problema. Muitas vezes, até é sinal de critério. O problema começa quando entramos no domínio do processo. Quando falamos de decisões que impactam outros, de objetivos, de resultados, de números, de compromissos assumidos — já não estamos no território do indivíduo. Estamos no território coletivo. E aqui, a regra é outra: a verdade deixa de ser opcional.
E é neste ponto que constato que algumas culturas organizacionais falham. Não por excesso de privacidade, mas por tolerância à distorção. Pequenos “ajustes” na informação. Expectativas comunicadas sem base real. Promessas feitas para ganhar tempo. Estados de situação suavizados para evitar desconforto. Nada disto parece grave no momento. Mas é assim que a confiança começa a degradar-se... Numa cultura assim, ninguém sabe exatamente onde está. E quando não há clareza, cada um cria a sua própria versão da verdade.
Por esta razão continuarei a defender a transparência... não a exposição total! Pois transparência é coerência. É garantir que aquilo que é partilhado é sólido, é fiável, é utilizável para tomar decisões. Defenderei que a organização saudável não é aquela onde todos dizem tudo. É aquela onde todos sabem que não têm de dizer tudo — mas que nunca podem dizer algo que não é verdade.
Esta reflexão leva-me a pensar que a pergunta mais relevante não é se a cultura da empresa promove a transparência... e sim se as pessoas sentem que podem guardar o que é seu… sem sentirem que têm de mentir sobre o que é de todos?
Acredito que é nesse equilíbrio que se constrói — ou se destrói — a confiança!
Por fim, continuarei a defender que a privacidade protege pessoas. Honestidade protege relações. E sem relações de confiança, não há cultura, não há alinhamento e, muito menos, crescimento sustentável!