Recentemente li: “…nascemos para ajudar os outros… e se não o pudermos fazer, então também não os devemos magoar…” uma frase atribuída a Dalai Lama.
Crescemos a acreditar que o objetivo de uma empresa é dar lucro. E sim, é... e também acredito que o lucro é consequência, não origem! Na origem da empresa está, ou deveria estar, a sua utilidade pois uma empresa só existe porque é útil a alguém: a quem lá trabalha, a quem compra, a quem fornece, à comunidade onde está inserida… No fundo, uma empresa nasce para ajudar. Dai ter tudo a ver com a frase de Dalai Lama.
E quando assim não é? Esta foi a minha reflexão da semana… Acontece sim… apesar de que acredito não haja plena consciência! Em empresas familiares, por exemplo: negócios construídos com esforço, resiliência e sacrifício ao longo de anos. Estruturas sólidas, clientes fidelizados e equipas que cresceram com a casa. E depois chega a geração seguinte...
Imaginemos um cenário: um dos herdeiros assume um papel de liderança, não por escolha clara, mas por expectativa. Passa por várias funções, sem nunca se encontrar verdadeiramente em nenhuma. Tem um perfil criativo, visão, capacidade de gerar ideias… e é colocado numa função altamente operacional, onde o que conta é cumprir processos, rotinas e controlo. A partir daí, o impacto começa a fazer-se sentir: equipas desorientadas, decisões inconsistentes, tensão acumulada, pessoas a sair… em silêncio.
Óbvio ninguém acorda de manhã com a intenção de prejudicar. Mas isso não impede que o resultado final seja exatamente esse. E é aqui que a frase ganha outra dimensão - se uma empresa não está a ajudar, no mínimo não deveria magoar!
A realidade é desconfortável: e há muitas formas de “magoar” sem intenção:
- Quando não desenvolve as pessoas, estás a limitá-las...
- Quando promete mais do que entrega aos clientes, está desgastar confiança...
- Quando pressiona fornecedores até ao limite, está a fragilizar relações que sustentam o seu próprio negócio...
- E quando se refugia no “sempre foi assim”, está a perpetuar decisões que já deixaram de fazer sentido…
Ouço líderes que dizem, com convicção, que nas suas empresas ninguém é mal tratado. E acredito que, muitas vezes, isso seja verdade. Mas, após ler esta frase, concluo que não chega. Uma empresa não se mede apenas pela ausência de dano. Mede-se pela presença de impacto positivo.
No caso do exemplo acima da empresa familiar, o problema nunca seria o negócio em si. E sim o desalinhamento entre a pessoa e o papel. A insistência em encaixar alguém num lugar onde nunca poderia dar o seu melhor. E situações destas tem um custo — para a empresa, para as equipas e para o próprio!
Concluindo defendo que liderar também é: ter coragem para parar e questionar:
- Esta pessoa está no lugar certo ou apenas no lugar esperado?
- Este processo ajuda ou apenas controla?
- Esta decisão constrói ou está, lentamente, a desgastar tudo à volta?
- Porque no fim, a questão é simples, ainda que desconfortável: a sua empresa melhora a vida das pessoas à sua volta… ou limita-se a não a piorar demasiado?
Por fim... muitas vezes, a mudança começa num ponto menos visível, mas decisivo — ganhar consciência do impacto que já está a ter, mesmo sem querer!