Iniciamos Março. O mês em que se fala das mulheres.
Antes de falarmos de igualdade de género, empowerment ou liderança no feminino, deixem-me falar de Barcelos. E de Setembro.
Desde o século XVIII, uma vez por ano, realizava-se mesmo no centro de Barcelos - a Feira das Mulheres. Uma feira onde eram as mulheres que compravam, vendiam e negociavam. Sem intermediação masculina. Sem pedir autorização. Sem precisar de tradução. Imaginem só!
Num contexto rural e profundamente patriarcal, aquela feira criava algo raro: um espaço de autonomia real. As mulheres eram agentes económicas visíveis. Tomavam decisões. Geriam dinheiro. Construíam relações comerciais.
Esta feira não estava ligada a nenhuma causa simbólica e sim ao fim das colheitas. Ao ciclo agrícola. À necessidade prática e vital — de comercializar o que da terra tinham colhido! E não, não era um protesto. Era competência!
Hoje falamos de mulheres líderes, empreendedoras, gestoras. Falamos de lugar à mesa — ainda há dias alguém me dizia exatamente isso. Mas a verdade é que as mulheres sempre estiveram à mesa. Simplesmente nem sempre tiveram direito à palavra.
A emancipação que hoje celebramos acredito não começou nos palcos nem nas conferências. Começou muitas vezes na responsabilidade silenciosa de sustentar a família, garantir sobrevivência…
Neste mês da mulher, talvez a maior homenagem que possamos fazer não seja celebrar o que agora começou. E sim honrar o que já acontecia há séculos — em feiras de Setembro, em aldeias do Minho, por mulheres cujos nomes nunca ficaram registados em lado nenhum.
Sem palco. Sem hashtag. Sem precisar de mais nada para justificar o que faziam.
Pois é... a emancipação feminina, em Barcelos, já se praticava muito antes de ter nome!
PS: falo das mulheres de Barcelos pois foi a terra que me viu crescer. Haverá outras com certeza. A todas as que fizeram acontecer sem pedir licença — em qualquer terra, em qualquer século - o meu aplauso!